O berço montessoriano virou queridinho nas redes sociais e nas lojas de enxoval de bebê. Ele aparece em fotos de quartos lindos, cheios de itens no chão, luzinhas e uma caminha baixa em formato de casinha. Mas, quando o assunto é sono de bebê, não dá para decidir só pela estética.
Neste guia, vamos explicar, com calma e em linguagem simples:
- O que é um berço montessoriano de verdade.
- De onde veio essa ideia (e o que tem a ver com o método Montessori).
- Quais são os principais prós e benefícios – pensando em desenvolvimento e autonomia.
- Quais são os contras, riscos e limitações, especialmente do ponto de vista de segurança.
- Para que tipo de família e de casa esse tipo de cama/berço realmente faz sentido.
- Em quais situações talvez seja melhor optar por um berço tradicional ou outra solução.
Importante: ao longo do texto, vamos sempre aproximar a análise das boas práticas de sono seguro e das normas brasileiras de segurança para berços (INMETRO e ABNT), mesmo quando falamos de móveis que nem sempre se enquadram exatamente na definição técnica de “berço”.
O que é um berço montessoriano?
Origem na abordagem Montessori
A ideia do berço (ou cama) montessoriano vem da abordagem de Maria Montessori, que valoriza a autonomia da criança, o respeito ao ritmo individual e um ambiente preparado para que ela possa explorar o mundo com segurança.
Traduzido para o quarto do bebê, isso significa:
- Cama baixa ou no chão, para que a criança possa subir e descer sozinha quando tiver idade para isso.
- Ausência de grades altas, que limitem o campo de visão ou a movimentação.
- Acesso fácil a alguns brinquedos e livros, em alturas compatíveis com o tamanho da criança.
Como costuma ser um berço montessoriano na prática
Na prática, o que o mercado chama de “berço montessoriano” costuma ser:
- Uma estrutura baixa, às vezes colada ao chão, às vezes com base um pouco elevada, mas bem mais baixa que um berço tradicional.
- Laterais baixas, com ou sem grade, e altura pensada para que a criança maior tenha maior liberdade de entrar e sair.
- Em muitos casos, um móvel 2 em 1 ou 3 em 1, que depois se transforma em minicama ou cama infantil.
- Formatos variados: retangular tradicional, casinha, com ou sem estrado, com ou sem cabeceira e peseira bem marcadas.
Na maior parte das vezes, esse tipo de móvel se encaixa mais na categoria “cama infantil montessoriana” do que na definição técnica de berço tradicional prevista nas normas brasileiras.
Quais são os principais prós do berço montessoriano?

1. Estímulo à autonomia (na fase certa)
Um dos maiores atrativos é a promessa de que a criança poderá:
- Subir e descer da cama com mais facilidade quando já tiver coordenação motora para isso.
- Explorar o quarto com mais liberdade, pegando livros e brinquedos acessíveis.
- Participar mais ativamente da própria rotina de sono, deitar e levantar com menos ajuda.
Isso pode ser positivo quando a criança já tem idade e desenvolvimento suficientes para se locomover com segurança e quando o ambiente está totalmente preparado.
2. Integração com a proposta do quarto infantil
A cama/berço montessoriano costuma fazer parte de um projeto maior de quarto:
- Móveis baixos, nichos ao alcance da criança.
- Itens decorativos na altura do olhar infantil.
- Espaço livre no chão para brincar.
Para famílias que valorizam essa proposta e conseguem manter o quarto organizado e seguro, o berço/cama montessoriano ajuda a transformar o ambiente em um espaço de exploração mais livre.
3. Transição mais suave para a cama
Se o berço montessoriano for usado na fase certa, ele pode facilitar a transição do berço tradicional (com grades) para a cama infantil:
- A criança já se acostuma com uma cama mais baixa.
- O risco de quedas de altura é menor, pois a base é próxima ao chão.
- Em muitos modelos 2 em 1 ou 3 em 1, a cama acompanha por mais tempo o crescimento.
4. Estética e personalização
Não é o fator mais importante do ponto de vista de segurança, mas é um ponto real na decisão de muitas famílias:
- O berço montessoriano permite projetos de quarto muito personalizados (casinha, temáticos, estilos escandinavos, lúdicos etc.).
- Por ser baixo, muitas vezes deixa o ambiente visualmente mais leve.
Desde que a estética não passe na frente da segurança e da função de proteger o bebê enquanto dorme, esse pode ser um benefício adicional.
Quais são os principais contras e riscos do berço montessoriano?
Aqui é onde precisamos ser mais firmes. Quando falamos de sono de bebê, especialmente em menores de 1 ano, as boas práticas de segurança são muito claras: superfície firme, plana, livre de objetos soltos, com proteção contra quedas e aprisionamento de partes do corpo.
Muitos modelos chamados de “berço montessoriano” não foram pensados originalmente para recém-nascidos e bebês muito pequenos, e é importante deixar isso transparente.
1. Nem sempre se enquadra na definição de berço das normas brasileiras
As normas brasileiras para berços (INMETRO/ABNT):
- Trazem requisitos específicos sobre altura das laterais, distância entre barras, estabilidade, ausência de quinas cortantes, compatibilidade com colchão adequado etc.
- Foram pensadas para reduzir riscos graves, como quedas, aprisionamento de cabeça/membros e outras situações perigosas.
Muitos móveis vendidos como “berço montessoriano”:
- Têm laterais muito baixas para serem considerados berços tradicionais.
- Podem ter estrutura mais próxima de uma cama infantil.
- Não deixam claro se atendem ou não aos requisitos técnicos de berço definidos em norma.
Por isso, antes de comprar, é importante verificar se o produto é classificado e certificado como berço ou se é uma cama infantil montessoriana indicada para determinada faixa etária.
2. Ambiente precisa ser 100% preparado para uma criança circulando
Ao optar por um berço/cama montessoriano, você está, na prática, permitindo que o bebê (quando um pouco maior) tenha liberdade para sair da cama sozinho. Isso traz riscos importantes se o quarto e a casa não estiverem preparados, por exemplo:
- Móveis que podem tombar se a criança escalar.
- Tomadas acessíveis sem proteção.
- Fios soltos (luminárias, babás eletrônicas, cortinas, carregadores).
- Itens pequenos ou cortantes ao alcance.
- Acesso a escadas, áreas externas ou outros ambientes sem supervisão.
Ou seja: o berço montessoriano só faz sentido se vier junto com um ambiente inteiro adaptado, e não apenas com a cama baixa.
3. Pode não ser a melhor opção para recém-nascidos e primeiros meses
Para recém-nascidos e bebês pequenos, as recomendações mais conservadoras de sono seguro costumam preferir:
- Berços tradicionais ou mini berços, com laterais adequadas e colchão firme.
- Superfícies livres de almofadas, protetores fofos, cobertores pesados, brinquedos e outros objetos.
Nessa fase, o berço montessoriano pode trazer desafios, como:
- Dificuldade maior para os pais pegarem o bebê do chão várias vezes à noite.
- Risco de outros irmãos pequenos ou animais de estimação terem acesso fácil ao bebê dormindo.
- Menor contenção para um bebê que ainda não rola com controle, mas pode se mexer de forma imprevisível.
Por isso, muitas famílias optam por introduzir a cama/berço montessoriano apenas mais tarde, quando a criança já é maiorzinha e a prioridade não é mais a contenção típica do berço tradicional.
4. Risco de excesso de itens dentro da cama
É muito comum ver fotos de quartos montessorianos com:
- Almofadas grandes em volta de toda a cama.
- Protetores altos e fofos.
- Brinquedos, bonecos de pelúcia, mantas pesadas e vários itens decorativos.
Do ponto de vista de segurança do sono, isso é uma bandeira vermelha:
- O ideal, especialmente para bebês, é que a superfície de sono seja firme, plana e praticamente sem objetos soltos.
- Almofadas e protetores fofos podem aumentar o risco de sufocação e de aquecimento excessivo.
Isso vale para qualquer tipo de berço ou cama, inclusive os montessorianos.
5. Pode exigir investimento duplo
Dependendo da idade em que o bebê vai usar o berço/cama montessoriano, a família pode acabar:
- Comprando primeiro um berço tradicional (ou mini berço) para os primeiros meses.
- E só depois investindo no berço/cama montessoriano como etapa seguinte.
Para alguns orçamentos, pode ser pesado fazer as duas compras. Nesse caso, é importante avaliar com calma se realmente vale a pena ter as duas fases ou se faz mais sentido escolher um caminho único.
Para quem o berço montessoriano realmente faz sentido?

1. Famílias que querem aplicar a filosofia Montessori no dia a dia
O berço/cama montessoriano combina bem com famílias que:
- Já se identificam com a ideia de ambiente preparado e autonomia progressiva da criança.
- Estão dispostas a adaptar o quarto (e, se possível, a casa) para que tudo seja seguro à altura dos olhos e das mãos do pequeno.
Nesses casos, a cama baixa é apenas uma peça de um projeto maior, e não um item isolado.
2. Crianças que já estão na fase de transição do berço para a cama
O berço montessoriano faz mais sentido quando:
- A criança já não é mais um bebê pequeno.
- Já consegue se levantar, andar ou engatinhar com segurança.
- A família está começando a pensar em transição para a cama, mas ainda quer manter uma altura bem baixa para reduzir risco de quedas.
Cada família vai definir o momento com o pediatra, mas muitas optam por experimentar esse tipo de cama a partir do segundo ano de vida ou quando a criança já demonstra sinais claros de prontidão.
3. Quartos em que é possível controlar bem o ambiente
O berço/cama montessoriano combina melhor com:
- Quartos em que é possível isolar riscos (tomadas, fios, prateleiras altas instáveis, acesso a corredores ou escadas).
- Ambientes que podem ser mantidos organizados e relativamente livres de objetos soltos no chão.
Se o quarto é muito apertado, cheio de móveis altos e com muita circulação de adultos, irmãos e animais, pode ser mais difícil manter a proposta montessoriana com segurança.
Em quais situações o berço montessoriano pode não ser a melhor escolha?
- Famílias com pouca possibilidade de adaptar o ambiente (por exemplo, quarto super apertado, móveis que não podem ser fixados, muita circulação de pessoas).
- Casas com escadas internas, varandas ou áreas externas de fácil acesso a partir da porta do quarto da criança.
- Presença de animais de estimação que circulam livremente e podem subir na cama do bebê sem supervisão.
- Quando os responsáveis não se sentem confortáveis com a ideia de a criança sair da cama sozinha durante a madrugada.
- Orçamentos em que ter um berço tradicional + um berço/cama montessoriano representa um custo muito alto e obriga a abrir mão de outras prioridades importantes.
Nesses cenários, pode ser mais seguro e realista apostar em:
- Um berço tradicional bem escolhido, alinhado às normas brasileiras.
- Uma transição mais tardia e planejada para uma cama infantil, quando a criança estiver pronta.
Como usar um berço ou cama montessoriana com mais segurança
Se, depois de considerar prós e contras, você decidir seguir com um berço/cama montessoriano, vale redobrar a atenção em alguns pontos:
1. Converse com o pediatra sobre o momento ideal para fazer a transição, levando em conta a idade, o desenvolvimento e o temperamento da criança.
2. Verifique as informações do fabricante:
- Para qual faixa etária e limite de peso o produto foi projetado.
- Se é classificado como berço ou cama infantil.
- Quais são as orientações de montagem e uso seguro.
3. Mantenha o quarto o mais seguro possível:
- Fixe móveis altos na parede.
- Proteja tomadas e organize fios.
- Evite objetos pequenos, cortantes ou pesados ao alcance.
4. Siga os princípios de sono seguro:
- Colchão firme, do tamanho exato da base, sem vãos entre colchão e estrutura.
- Nada de travesseiros, almofadas decorativas, protetores fofos altos, mantas pesadas ou brinquedos dentro da área de sono enquanto a criança dorme.
5. Monitore a adaptação:
- Observe como a criança reage nos primeiros dias.
- Ajuste o ambiente e a rotina conforme necessário.
Resumo: vale a pena ter um berço montessoriano?
O berço montessoriano não é vilão nem solução mágica. Ele pode ser uma ótima peça dentro de um quarto pensado para a autonomia da criança, desde que:
- Seja usado na fase certa, e não necessariamente desde o nascimento.
- Venha acompanhado de um ambiente preparado e seguro.
- Não substitua o cuidado com as recomendações de sono seguro amplamente aceitas.
Para algumas famílias, principalmente as que valorizam muito a abordagem Montessori e conseguem adaptar bem a casa, ele faz bastante sentido como etapa de transição para a cama.
Para outras, um bom berço tradicional alinhado às normas brasileiras, seguido de uma cama infantil escolhida com calma mais adiante, pode ser um caminho mais simples, seguro e adequado à rotina.
O mais importante é que a decisão seja tomada com informação, realismo em relação à rotina da família e prioridade absoluta para a segurança do bebê e da criança.










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